Testemunhos da Mafalda e do Gonçalo: Voluntários APOIAR 100 Limites 2017

TESTEMUNHO DA MAFALDA E DO GONÇALO: VOLUNTÁRIOS APOIAR 100 LIMITES 2017

Mafalda Batalha e Gonçalo Cabecinha foram voluntários no Programa APOIAR 100 Limites 2017, um Programa realizado em parceria com a APOIAR – Associação Portuguesa de Apoio a África – que consiste em apoiar a implementação de projectos na Fundação L. Vida, na vila do Dondo, na província de Sofala, em Moçambique.

Partilhamos consigo os testemunhos destes jovens que viveram diversas experiência durante 1 mês no Dondo:

«Durante toda a nossa vida ouvimos falar da “pobreza de África”. Sabemos que existe, sabemos que algures do outro lado do mundo, a 7888km de distância, existem crianças a quem nem é dada uma oportunidade. Em Agosto de 2017 decidi ir conhecer um bocadinho melhor esta pobreza. O que vivi durante este mês no Dondo foi uma experiência inacreditável de entrega, serviço e desprendimento. Fui desafiada a dar de mim como nunca tinha dado, deparei-me com uma realidade e uma mentalidade, que muitas vezes me chocaram e revoltaram, mas, acima de tudo, deparei-me com uma alegria contagiante. Uma alegria que não olha a bens materiais, que vive da simplicidade, uma alegria que sei que regressou comigo para Portugal. Aprendi que é preciso saber relativizar os problemas, que os frutos nem sempre são visíveis no imediato e que as pessoas são muito mais do que a realidade que as rodeia. Agora que voltei à rotina, dou por mim a viajar outra vez até àquela pequena vila do Dondo, ao mercado, à Igreja, às salas de aula, ao telheiro onde era servido o almoço. Dou por mim a pensar nas pessoas que cruzaram o meu caminho e que, de uma maneira ou de outra, me marcaram. Dou por mim a olhar à volta e a sentir-me verdadeiramente agradecida por aquilo que Deus me deu. Não tenho qualquer duvida que esta é uma experiência que vou recordar sempre com um carinho especial e que levarei para o resto da vida.» – Mafalda Batalha

«Faço este balanço para quem pensa iniciar esta jornada através da “APOIAR 100 limites”, mas também para mim. Nunca tive o hábito de escrever “diários “e sei quantas recordações “perdi” ou não estão tão presentes. Aqui em Lisboa parece que há tempo e espaço para isso. Dondo é uma cidade tão vibrante, nem acredito que escolhi esta palavra para descrever como sossegada. Há barulho constantemente. Os carros e motos são conduzidos rápido, o pó é constante, as pessoas para cima e para baixo, o homem que vende ovos, o homem que vende coca-cola, que nos diz bom dia a cada minuto e que quer saber como estamos e para onde vamos, crianças a andar e a vender comidinhas que tem o calor do sol e o pó do ar como ingredientes principais. O camião que para para descarregar sei lá o quê. A correr, parar e gritar… e o calor. Sempre calor. Tive sorte de ser acompanhado quase sempre pelo vento. Há alguns chineses. Imensas igrejas”alternativas”! Não é uma cidade bonita mas, para mim, também não é feia. A verdade é que ainda não a conheço como gostaria. No geral é um povo bonito. Quase que não encontrei ninguém “feio”! Quando te dizem “sim sim sim” é porque não estão a entender ou a ouvir. Confirma sempre! Gostam de responder com “sons” tipo “hm” que pode ser sim ou não. Dizem “nada” em vez de “não” (já foste às compras? Nada). Dizem nice (em vez de fixe) e outras inglecices – ,tipo jobar (trabalhar). São alegres e bem dispostos. Ouvia mulheres dizerem algo que as portuguesas nem sempre dizem “às vezes preciso de tempo só para mim”, ou “só para estar com as minhas amigas, ou só para estar com o meu marido”. A maioria dos locais de classe média ou até média baixa, ainda não sei,tem alguém em casa a ajudar para limpar e cozinhar, etc. Tem diferentes religiões e alguns até se convertem para outras e são todos amigos, sem ver isso como uma diferença. Não se vê muitas demonstrações de carinho na rua. É possível ver homens a andar de mão dada, sinal de irmandade/camaradagem. Também dançam uns para os outros, tipo competição (saudável) e é delicioso! Há uma grande diferença entre províncias: tudo muda,o papel da mulher, do homem, da relação, da família, da poligamia, do casamento, da gravidez, do luto, etc. Li um livro da Paulina Chiziane (Niketche Uma história de poligamia) que descreve isto muito bem. Conheci boa gente por lá a fazer a diferença! Senti me bem no Dondo. Sinto, antecipadamente, que vou precisar de mais rede de conhecidos/amigos e coisas para fazer e estou a mover energias e esforços nesse sentido. E sim, claro, às vezes bate a saudade. E a vontade de estar com alguém tão vivo como os moçambicanos. Também antecipadamente sinto saudades de algumas africanices de organização, comunicação, planeamento, água, internet, etc. Por enquanto, até agora sinto que foi uma experiencia, que se irá manter. Tenho muita vontade de explorar o resto de moçambique e conhecer as suas maravilhas e já estou a tentar fazer acontecer. E é isto, por um mês.» – Gonçalo Cabecinha